“L’oeil existe à l’etat sauvage”
André Breton
Em França, as fotografias de Fernando Guerra serviram de base a um projecto para os alunos da École Élémentaire Paradis, de Meulan. Este exercício, concebido e orientado pela professora Katell Jolivet, durou várias semanas e envolveu um grupo de 25 alunos de nove anos de idade, que a partir das imagens de Fernando Guerra, deram os primeiros passos na fotografia.
O Projecto
Na primeira fase do projecto, este grupo de alunos teve o primeiro contacto com o trabalho de Fernando Guerra a partir de www.fernandoguerra.com. Por esta altura, os alunos limitaram-se a observar e apreender através das suas imagens, um novo modo de ver a realidade.
A segunda fase consistiu numa tentativa de apropriação de um espaço familiar às crianças através da fotografia. De câmara em punho, o grupo fotografou a própria escola de forma crítica, intensa e sensível. E revelaram-se, já aqui, alguns olhares marcados pela fotografia de arquitectura de Fernando Guerra.
Por trás de toda esta visibilidade inerente às fotografias produzidas ao longo do projecto, existe, aparente-mente, uma forte tentativa de fazer os alunos reflectir sobre as suas próprias imagens, fazendo-os decidir de forma conhecedora acerca daquilo que pretendem incluir na imagem. Ao mesmo tempo, eles vão tomando consciência acerca dos diferentes elementos da imagem e do facto de as fotografias poderem seleccionar, valorizar e mostrar “novos” aspectos do quotidiano.
Em termos históricos, o nosso contacto com o mundo através da visão precede em milhares de anos as palavras. Nesta idade, a criança abandona, em grande parte, o seu carácter egocêntrico e volta-se para o mundo e é também através da visão que estabelece o seu lugar no mundo. Neste caso, a fotografia apresenta-se como uma ferramenta auxiliar providencial na aferição desta transição.
A terceira fase foi um retorno ao trabalho original de Fernando Guerra. A partir das suas imagens, os alunos fizeram um exercício de análise e criatividade ao trabalhar sobre aquilo que a fotografia não mostra. Aquilo que fica de fora da imagem, é abordado por estas crianças de forma simples e descomprometida, que através do desenho procuram recriar os espaços imaginários que as imagens lhes sugerem.
Convém lembrar que todas as imagens fazem sempre parte de uma experiência pessoal do mundo e que integramos e assimilamos estas imagens de forma pessoal e em função da nossa própria história e do nosso condicionamento. Acima de tudo, devemos ter presente que co-construímos o sentido do mundo em que evoluímos, bem como das representações que nele circulam. Este trabalho de construção de um imaginário a partir do imagético só vem provar isso.
Conclusão
Através deste projecto, comprovamos que a fotografia facilmente se adapta a diferentes abordagens e níveis de desempenho. Certamente que algumas das crianças se interessaram mais pelo processo fotográfico em si, outras pelo processo artístico e outras ainda se interessaram mais pelo tema. Este tipo de projectos apresenta uma infinidade de níveis e possibilidades de aplicação, ao mesmo tempo que abre novas perspectivas relativamente à forma como as crianças vêem e dão a ver o mundo.
É ainda de louvar o papel da professora Katell Jolivet que coordenou todo o projecto. Não bastaria alguma familiaridade com os processos e técnicas fotográficas (ou pelo menos algum interesse e paixão). Um exercício deste tipo implica uma discussão cuidada com os alunos por forma a perceber (ou a tentar perceber) o que é mais importante para eles nas suas imagens. Ao mesmo tempo, devem ser apontados caminhos e sugestões por forma a estimular os alunos e a ensiná-los a ver, mas sempre mantendo um respeito rigoroso pelas suas intenções e limitações.
Para o bem das nossas crianças e das nossas imagens, resta-nos esperar que iniciativas destas se repitam e que as “Escolas Paraíso” se multipliquem.
Miguel Coelho, Outubro de 2005
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