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A Casa Que Se Bifurca
Na pendente norte de um vale, no Romeirão, próximo da Ericeira, agregam-se várias casas de dois pisos de forma espontânea. Quase todas estão implantadas de forma a destacarem-se volumetricamente da paisagem, não estabelecendo com ela nenhuma relação para além de uma visibilidade agressiva e inconsequente. Em termos expressivos protagonizam um equívoco que alastra na paisagem portuguesa, um equívoco hoje normativo, que se socorre de forma distorcida de uma suposta referência à arquitectura popular - o que não deixa de ser uma contradição, porque a característica primeira da arquitectura vernácula é a sua relação de reciprocidade com a paisagem. Mas no Romeirão existe agora um contraponto a esta norma - o primeiro, além de um solar secular do outro lado do vale. A casa que o escritório ARX Portugal (arquitectos José Mateus e Nuno Mateus) agora concluiu é a primeira a fundamentar essa reciprocidade e a indagar o que pode ser o espaço doméstico nesta paisagem.
Os arquitectos não fazem qualquer alusão directa aos valores tradicionais da cultura arquitectónica. Esses valores estão implícitos num conjunto de temas que sustentam a ideia da casa, devidamente filtrados, e que se cruzam com um universo maior de outros temas, mais abstractos, caros à investigação em projectos deste escritório. Daí resulta um trabalho de compreensão das condicionantes e de assumida conceptualização sobre o programa do cliente.
O projecto reage com grande naturalidade às condicionantes físicas e perceptivas do lugar, às quais responde com um único gesto: privilegiar o domínio visual sobre o vale, tirando partido da orientação a sul, e privar a casa de um contacto directo com as construções mais próximas. Daí resulta um volume longo - "tubular", como lhe chamam os autores -, cuja forma reage à topografia, contrariando as curvas de nível. No extremo norte, a casa está enterrada, permitindo uma continuidade de perfil entre pendente e cobertura plana quebrada em dois planos, que estão, contudo, demarcados da paisagem com o revestimento a seixo. No extremo sul, a casa está suspensa sobre socalcos no contacto mais directo com o vale, enquadrando no interior uma vista "scope" sobre o vale.
Esta formalização do programa gera complexidade, quando se estabelecem as hierarquias funcionais e espaciais no interior. Acede-se à casa por um pátio - que funciona como um filtro pintado de ocre, mas também um acerto de escala - onde se clarifica um esquema distributivo clássico (divisão entre área social e área de quartos). A presença irrefutável de um tanque e de uma nogueira a nascente, agora ocultados pelo volume branco da casa a quem chega, motiva a bifurcação do sistema tubular originário, e a descoberta destes elementos passa essencialmente a ser feita ao percorrer-se o interior. Com a fractura do volume inicial, os espaços reagem momento a momento, tema a tema, com grande proximidade e intimismo ante elementos da paisagem que são transportados para o interior de forma distinta do ecrã monumental da sala de estar. Gera-se uma diversidade de escalas - entre espaços estreitos e altos ou largos cujo plano de tecto é quebrado - que constrói a hierarquia e identidade de cada um. Assim a sala "aponta" ao vale, o quarto principal - o espaço que mais partido tira da bifurcação -, parcialmente suspenso, "aponta" ao tanque e o corredor central está por sua vez rematado por um vão que enquadra a nogueira. Estas três peças balizam conceptualmente a casa, que se formaliza com uma paleta reduzida de materiais, onde a pedra (calcário e granito) é utilizada precisamente na marcação dos momentos mais fortes: a bifurcação, as "topos" e a entrada.
Uma das indagações colocadas nas últimas décadas, no panorama da arquitectura, é precisamente aferir o tipo de contributo das moradias unifamiliares para o campo disciplinar. Aquilo que começou por ser uma alternativa à cidade densa no século XIX - a "cidade" dispersa na natureza na qual idealmente se tentava fixar - e acabou numa circunstância - a cidade difusa - adquiriu no território nacional nos últimos 30 anos proporções inimagináveis. E, se o problema se prende, antes de mais, com a (inexistente) organização e (ineficaz) gestão do território, prende-se também com a capacidade daquilo que se constrói - independentemente da escala ou programa - para gerar qualidades genéricas na paisagem. É certo que as casas são uma resposta parcial de grande especificidade, mas a dimensão da casa, aquela que importa e que atravessou séculos, é a dimensão cultural e não apenas a funcional. E é essa dimensão aquela que está totalmente delapidada na paisagem contemporânea em Portugal. Daí a importância de alguns projectos de pequena escala que possam fazer extravazar a sua metodologia, não a sua forma.
O conjunto de temas tratados nos projectos referências de casas constituem pistas para um olhar generalizado sobre questões genéricas relacionadas com o território e a paisagem. Isto, para além da necessária qualidade tipológica e expressiva que se espera do tema, onde o cliente desempenha um papel fundamental. Essa tradição de qualidade foi continuada por projectos conceptualmente tão distintos e para situações tão diversas como os de Ruy Athouguia (1917), João Andreson (1920-1967), Fernando Távora (1923), Álvaro Siza (1933) e Eduardo Souto Moura (1952), ou mesmo o recente Prémio Secil atribuído a Pedro Maurício Borges (1963), para citar só alguns arquitectos cuja prática passou ou passa pela habitação. Hoje, com a arquitectura a conhecer uma divulgação sem precedentes, por vezes também sem critério, esse caminho parece ser ainda mais difícil, mais tortuoso e carregado de equívocos, parte dos quais da responsabilidade dos arquitectos. Nesse sentido a casa do Romeirão do escritório ARX Portugal inscreve-se de imediato num conjunto de projectos cuja capacidade de gerar qualidades, a partir da compreensão daquilo que é essencial, não se esgota no cumprimento sedutor e competente de um programa.
Texto Ricardo Carvalho/ Mil folhas - Jornal Público
Memória descritiva
O terreno de implantação é caracterizado por uma vincada ruralidade, com as suas hortas, pomares, caminhos cercados com muros de pedra arrumada à mão e casas dispersas, desarrumadas.
Trata-se de uma encosta íngreme, virada a sul sobre o vale, sulcado por uma ribeira de onde se ergue a montanha que remata a vista. É rampeado na metade superior e moldado por socalcos agrícolas na inferior. Na transição existem duas referências mais claras, que se tornaram ponto de partida para o projecto: um tanque de rega e uma nogueira.
As primeiras visitas ao local sugeriam, quase de imediato, um corpo deitado sobre a pendente, em oposição ao percurso de chegada, que abrigasse a vida na casa dos olhares das casas envolventes e que orientasse as vistas do interior sobre o vale, a sul.
A beleza do terreno determinou o projecto, e a casa desenvolveu uma relação intimista com o plano de terra: enterra-se à medida que sobe, tornando-se também ela terreno sobre o qual se caminha; descola-se enquanto desce, saliente da pendente.
Desenhou-se então um corpo alongado, uma linha dobrada sobre si mesma e sobre o tanque e a árvore que lhe dá sombra. Entre eles conformou-se o espaço primordial de estadia no exterior. Ao longo do corpo da casa são “escavados” pátios, espaços de sossego intimista que o local, muito exposto, não possui: o pátio da entrada; o do quarto de hóspedes e o do corredor.
As extremidades da forma tubular bifurcam-se e orientam-se para o exterior diferenciadamente: o topo do quarto principal é estreito e alto, “observando” o vale a nascente; o topo largo e achatado contém a sala de estar e “debruça-se” suspenso sobre o vale a sul.
A zona de quartos é servida por um corredor austero, com topos caracterizados por realidades opostas: a norte abre-se num pátio afundado no terreno, contido e intimista; no extremo oposto abre-se a uma paisagem de grande profundidade, com a nogueira em primeiro plano e a montanha ao longe.
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